segunda-feira, janeiro 23, 2006
Manta nasceu numa noite gélida de inverno. No final do primeiro mês do ano. Na terra onde nasceu, nas fraldas da serra da Cabreira, o frio é agreste e seco, a geada congelava lagos e era intensa na época. No dia do seu nascimento estava tudo preparado e quente para recebê-la. A parteira era a avó adoptiva, uma velhinha simpática e meiga de rosto branquinho e cabelo branco enrolado no cimo da cabeça, era decidida e arrojada, hábil e amiga da família, como mãe da mãe de Manta. Estava previsto Manta nascer naquele dia. Assim, levaram a irmã de Manta para a casa onde a avó adoptiva vivia com o filho, a nora e os netos. Pessoas amigas da família há longos anos e que se conviviam como que de verdadeira família se tratasse. Passavam juntos serões á lareira a contar histórias, faziam passeios e merendeis, estavam presentes nas alegrias e nas tristezas.Manta lembra de serões em que o sono se tornava pesado demais para escutá-las, mas que enquanto não se vinha, ela sorvia cada história de exemplos de vidas a seguir pelos valores que mostraram saber usar, de fantasmas e bruxas que a faziam sonhar com pesadelos. No dia do seu nascimento o pai de Manta estava em casa nervoso á espera da sua chegada. Ouvia rádio baixinho para poder seguir todos os sons do quarto ao lado. Ao sinal horário das 21 horas ouviu o grito de liberdade da Manta. Desde o dia do seu nascimento os relógios de casa passaram a assinalar a data. Despertavam às 21 horas nos anos seguintes. Manta delirava com os sons dos vários relógios, o do pai, um relógio de pulso de dois volantes que tinha um som muito próprio e que só tocava para ela, e, o grande, a que todos tinham raiva por os tirar da cama até nos dias mais frios de manhã muito cedo, com a campânula redonda e os martelinhos com um barulho ensurdecedor. Nesse dia todos os despertadores tocavam, como anjos de trombeta, causando um sorriso de felicidade ao pai, causador dos ruídos, que delirava com a alegria de Manta pela surpresa. Tocavam até que a corda acabasse. Só depois era chegada a hora de cantar os parabéns e partir o bolo que a mãe fazia para a ocasião - a mãe sempre fazia de dia um lanchezinho para ela e para os amigos mais chegados - mas á noite estava o pai e a festa era maior. O pai nunca esquecia dos relógios. Na memória de Manta os relógios tocam e o sorriso do pai baila em cada aniversário silencioso de agora.
quinta-feira, dezembro 29, 2005
Os vícios de Manta
Desde bebé Manta mamava na chupeta. Onde ia, a chucha companheira de todas as horas, acompanhava-a. A mãe quando ela começou a crescer envergonhava-a - Que feia! Tão grande e de chucha. Não tens vergonha? Õ pai piscava o olho a Manta e dizia: - É docinha não é? - Ela assentia com a cabeça – e depois como dormias? Diz á mãe que ela não percebe nada… Só tu e eu é que sabemos como isso sabe bem – sorria maroto para a mãe e piscava o olho a Manta. A mãe atrapalhada dizia: - És um tolo! – Atalhava – És pior que ela, alimentas-lhe o vício. Não chega o caracol?!.... Dá cabo do cabelo essa rapariga! Que raio de vícios! O pai pegava Manta ao colo e arreliava a mãe - Mama, minha menina, mama…. Embalava-a encostada naquele porto seguro, que era o peito largo e aconchegante. Manta assim relaxada levava o indicador á testa e pegava uma mexa de cabelo da franja, que caía sobre a testa, e com o indicador rolava até prender, com o dedo médio subia e descia sentindo o contacto de seda do cabelo nos dedos e o entorpecer do corpo a cada afago do dedo médio, que chamava o sono… Não era só no sono que usava fazer o caracol. Se estivesse cansada o dedito subia (conserva ainda esse relaxante). Muitas vezes durante o sono acordava com o dedo preso no cabelo, com a outra mão puxava até rebentar. Acordava no dia seguinte com o dedo roxo de falta de circulação sanguínea e com o cabelo ainda preso no dedo. Foi crescendo com os vícios ajudada pelo pai contra as investidas da mãe, ameaças e quejandos…. A chupeta era o que a mãe mais implicava, usou mil e uma maneiras, escondia-a, chegava-lhe café em pó e outras artimanhas. Mas Manta limpava com o bibe, que sempre usava. Como era bom sentir o plástico da chupeta subir e descer enrolado da língua. Com a conivência do pai mamava de dia às escondidas. Aos seis anos, quase sete, entrou para a escola. Era a 7 quilómetros de casa. Apesar de morar na Vila a professora não a matriculou por não fazer sete anos até Setembro. O pai que achava que era altura de matriculá-la resolveu fazê-lo na freguesia onde nasceu, para onde ia trabalhar todos os dias. A mãe, prevendo o desconforto que Manta sentiria pela da falta da chupeta, ia levantar-se muito cedo e o sono seria companheiro até chegar a hora da escola. Por outro lado iria permanecer, mesmo no fim das aulas, até o pai regressar á noite. Almoçariam juntos. A comida mandá-la-ia numa das horas que o pai fosse á vila pela manhã. A deslocação ia ser de autocarro com o pai ou com as professoras que também eram da vila. Mas como era muito tempo e podia dar-lhe o sono de tarde, condoeu-se. Sempre poderia dormir na casa do tio que morava na aldeia. Fez então uma saca pequenina de linho com uns atilhos torcidos, (como uma saca de milho miniatura), com essa protecção não correria o risco de a sujar a chupeta e apanhar alguma doença. Todas as manhãs Manta lavava a chucha e metia-a na saquinha que guardava na pasta. No autocarro o pai perguntava - Trazes?... Ela respondia: - Sim… e apontava a pasta. Era um código para que o revisor que era amigo da família não perceber. Manta sentava no banco do fiscal, do lado direito do pai. No meio tinha o motor do autocarro, onde se sentava quando queria estar mais pertinho dele. Raramente o pai se zangava com ela e se acontecia ela sabia, o pai arqueava as sobrancelhas e olhava-a triste. Manta nem sabia o que fazer, baixava a cabeça e sentia um calor enorme nos olhos e as lágrimas eram o sintoma da compreensão e do arrependimento. O pai uns minutos depois falava naturalmente, como nada tivesse acontecido. Ficava tudo bem. Manta sentia um carinho enorme por aquele pai compreensivo, nenhum pai das amigas era assim meigo. Todos os amigos de Manta gostavam dele e tinham medo aos pais deles. Era uma coisa que manta nunca sentiu por ele. Medo. Sentia respeito e sabia que havia coisas que ele não gostava ou porque já tinha sido repreendida ou tinha visto a irmã sê-lo. Nos dias de aulas levantavam cedo. A pasta ficava pronta do dia anterior. A mãe tinha o pequeno-almoço pronto com pão fresquinho. Os dois arranjavam-se e sentavam a tomar o pequeno-almoço, uma almoçadeira de leite com cevada e pão estaladiço e ainda morno com manteiga. Saíam de mão dada em direcção ao autocarro. No caminho para a escola, enquanto o revisor passava os bilhetes, o pai olhava pelo retrovisor e dizia: - Manta queres a chupeta? – Ela olhava-o comprometida e ele sossegava-a – O Artur está lá atrás... Dá uma chupadela rápido que eu digo se ele vier… Os olhos dele riam de poder satisfazer aquele prazer a Manta, sempre atento ao retrovisor como criança com medo de ser apanhado a fazer uma asneira. Ela não se fazia rogada e deliciava-se por uns segundos, até que o pai lhe dizia: -Guarda, rápido! Vem aí o Artur. Manta metia a chucha na saquinha de linho e guardava na pasta. Riam por ter enganado o revisor como que tivessem feito uma asneira. O Artur desconfiado perguntava: - Que se passa? O pai de Manta inventava uma história engraçada e riam todos, ela e o pai com muita mais vontade…
domingo, dezembro 25, 2005
A biblioteca
Por volta de 1965 foi inaugurada, na vila onde vivia Manta, a Gulbenkian fixa a 100 metros de casa. A irmã mais velha era leitora da itinerante que vinha todas as semanas. Manta queria ser leitora como ela, mas não era fácil, a idade era pouca e não era permitido. Com a abertura da fixa ela sonhava ter um cartão como a irmã, metido num plástico, pensava ela ser um estatuto superior ter o cartão... No dia em que a irmã transferiu ou adquiriu o cartão da fixa, a senhora que era agora responsável pela biblioteca é amiga da família e Manta tentou a sorte - Eu também queria um! A senhora riu-se, era muito simpática e amiga dela e da irmã e respondeu: - Tu não tens idade Manta e não sabes ler. Deixo-te ver os livros, vens quando quiseres. Mas... para inscrever-te, não tens idade... Manta ficou com os olhos rasos de lágrimas a fazer beicinho. A irmã de Manta olhou-a de canto como se ela tivesse dito uma grande asneira. Manta encolheu. Regressaram a casa e a irmã e a mãe riram dela e do pedido. Mas ela estava a perpetrar um modo de adquirir um cartão. Elas que rissem, logo se veria... Quando o pai chegou, a irmã mostrou os livros que tinha requisitado e o cartão novo. O pai olhou e folheou os livros... A Manta gemeu – Eu também quero ser leitora da biblioteca... O pai sorriu e a irmã adiantou-se: - Já chorou na biblioteca, mas não adianta, não tem idade para ser leitora. Manta insistia: - Mas eu quero ler e ter um cartão como o teu - já chorava... O pai quis explicar: - Não pode ser, filha, não tens idade. Os livros são coisas preciosas, meninos pequenos estragam... Ela dizia: - Mas eu só quero ser leitora, não estrago. - - Ó filha mas não sabes ler! Só quem sabe ler é que pode trazer livros e ter cartão. Vês os da tua irmã. Manta rebateu: - Mas os dela só têm letras e tem lá de figuras... O pai então virou-se para a irmã e disse: - Quando entregares esses trazes um para a Manta com imagens. A irmã assentiu. E assim passou a ser. Mas a irmã tinha um número limitado para trazer e aquele ocupava esse número privando-a de trazer os que queria para ela. Começaram a entrar em conflito. Um dia o pai resolveu dizer á irmã que perguntasse o que era preciso para Manta ser leitora com direito a cartão. Manta ganhou a batalha. A irmã perguntou e informou o pai: - Paizinho a Manta não pode inscrever-se, mas se o paizinho se quiser inscrever ela pode trazer livros no seu nome. A Lindinha disse para falar com ela. Manta não deixou o pai esquecer de falar com a senhora e dias depois lá foram ambos á biblioteca. Ficou combinado. Ela levaria livros com o cartão do pai. A ida á biblioteca passou a ser diária. A pedido do pai levava livros de zoologia. Era o pai que lhe lia, mas não eram histórias que a Manta gostava. Depois, aquelas imagens povoavam os sonhos de Manta... crocodilos... cobras... aves... Dava medo sonhar com aquilo. Começou a querer outros, mas o pai não tinha paciência para ler histórias de encantar. A irmã tinha os dela para ler e não dava tempo de ler os de Manta e a mãe era analfabeta. Por causa dos livros houve alguns atritos em casa. Cresceu em Manta a vontade de saber ler e com a ajuda do pai começaram a ser diferenciadas as primeiras letras no jornal... A irmã ia ajudando.Com o tempo deixou de levar para casa os livros de bicharocos que tanto a assustavam em sonhos. Levava agora livros de letras garrafais, com imagens lindas. Lembra ainda uma das histórias que leu e compreendeu, um pouco mais tarde..."Um agricultor tinha uma quinta e cuidava dos animais. Havia uma vaca que estava fraquinha e comia pouco. O agricultor preocupado com a vaca que lhe dava o leite para sustento da casa, resolveu vigiar o pasto e descobriu que a vaca só comia trevos... erva a vaca não comia... Era estranho, pensava ele, uma vaca esquisita...Trevos nos campos são raros não seriam suficientes os que tinha para manter a vaca bem alimentada e com saúde. Pensou.... pensou... E pôs mãos á obra. Arranjou uns óculos enormes e desenhou nas lentes trevos. Colocou-os na vaca e levou-a a pastar. Já no campo a vaca comia tudo o que lhe aparecia na frente erva, trevos e rebentos de arbustos.
Moral da história, sem provar a comida, não se sabe se se gosta.
Moral da história, sem provar a comida, não se sabe se se gosta.
A teimosia
O pai de Manta era mais tolerante. Quando ela nasceu o pai tinha cinquenta anos, talvez por isso. Ficou aflito com o acidente do tanque, repreendeu, mas sabia que Manta era teimosa e o tanque era uma tentação… Um dia de folga no trabalho e tentou arrancar de Manta a promessa de que nunca mais iria para o tanque sozinha, sabia que ia ser difícil, mas se conseguisse poderia estar descansado. Folgava às sextas-feiras, e numa dessas folgas sentou-se na escada, frente ao tanque, com a Manta no colo e foi dizendo -Sabes Manta não deves ir para o tanque. O pai não quer que vás... Manta mantinha-se calada encostada ao peito dele e a olhá-lo... O pai continuou - Está bem? Não voltas?... Ela não respondia as razões para não ir não tinham sido abordadas e o pai sabia... Olhou-a e disse: - Sabes filha o tanque é perigoso. Tu caíste sabes que falta o ar e podes afogar, tiveste sorte a senhora estar por perto. E se não estivesse? Morrias! Eu e a mãe íamos ficar muito tristes a tua irmã também. ... Manta foi adiantando - Mas eu gosto de lavar... O pai continuou, ela estava a ceder: - Eu sei! Não estou a dizer para não lavares. Mas só deves fazê-lo quando estiver gente grande no tanque, percebes? - E se eu tiver que lavar roupinha das bonecas? - Contrapunha a Manta O pai, cheio de paciência, dizia: -Pedes á mãe uma bacia com água, lavas na bacia. Fez uma pausa e repetiu: - Posso estar descansado não voltas mais ao tanque sozinha? Manta respondeu: - Está bem. Só volto com gente grande lá. O pai respirou fundo. Sabia que daí em diante ela não iria. Era muito teimosa, mas cumpria o que prometia.
domingo, dezembro 18, 2005
A casa nova
A família de Manta mudou de casa em 1964. A casa nova era mais ampla, boa para Manta correr naquele corredor enorme. Casa de pedra também no centro da vila onde mova, forrada, paredes de estuque, nova para a Manta mas já com uma construção antiga. Todas as divisões estavam do lado esquerdo, três quartos uma casa de banho, a sala e a cozinha. O corredor tinha duas portas, uma em cada extremo; cada uma das portas dava para escadas íngremes e perigosas e daí para um eido enorme; o eido tinha um tanque enorme de pedra com uma fonte onde a água brotava contínua límpida e sadia. Havia um acesso no eido para uma das três fábricas de pão da altura. Manta adorava pão de trigo quentinho e o cheiro era permanente, aquele pão com manteiga era agora uma constante... Os quatro anos e apenas alguns fios de memória. Criou vários amigos novos, além dos que tinha deixado na outra casa que ficava a 100 metros desta. Tudo gente que conhecia e a conheciam, mas sem a intimidade que se cria pela convivência permanente. A casa apesar de melhor que a outra tinha alguns defeitos, as correrias de Manta atiravam com pedaços de cal e por consequência "ralhetes" contínuos da mãe _ Manta!!! Não te quero a correr sujas tudo. Ando sempre a apanhar cal. Mas a Manta era irrequieta e depressa se esquecia. Outro eram as escadas íngremes e altas demais para as pernas dela... E o tanque?! Esse era o suplício. A mãe recomendava que não devia frequentá-lo sozinha e sempre que a apanhava lá, ralhava e as tranças de Manta eram esticadas para se lembrar... Mas uma distracção da mãe e Manta pendurava-se na pedra e ia beber água ou então lavar as roupas das bonecas que precisavam de andar lavadas. A mãe fazia muito bem malha e de pedacinhos de sobras de lãs das camisolas do pai ou dela e da irmã fazia casaquinhos para as bonecas. Certo dia, com aquele andar trôpego que mantinha, em equilíbrio na berma do tanque caiu. Lembra apenas que a empregada da casa da padaria a tirou da água depois de beber bastante. Acidentes de que a mãe tinha medo e de que sempre a advertiu. Escusado será dizer que teve sermão e missa cantada.
segunda-feira, novembro 28, 2005
A prenda de Natal
Manta rondava os quatro anos. Era uma miúda viva e traquina. Aquele Natal marcou-a para sempre… Recorda que no tempo não se falava ainda em Pai Natal, mas no Menino Jesus, como o amigo dos meninos que se portavam bem durante o ano e que como recompensa, na noite de Natal trazia prendas.
Era um processo demorado todo aquele preparar da noite de insónia. Histórias contadas á lareira no fim do jantar sobre as prendas dos anos anteriores. A irmã de Manta intervinha e dizia já tê-lo visto subir a chaminé, era mais velha 6 anos, mas naquela altura, inocente ainda.
O dia aproximava-se, a mãe de Manta um dia disse-lhe:
- Manta já pediste ao Menino Jesus a prenda? Manta tinha esquecido, mas tratou de recuperar o tempo perdido – mãos erguidas em oração, encostada á parede da sala e muito compenetrada pedia com fervor a prenda desejada – a mãe vendo-a sorriu e disse:
- Manta … - sorriu com ternura – filha, tens de pedir alto senão o Menino Jesus não ouve!
Manta sabia que a mãe lhe ia ralhar pelo pedido, por isso queria mantê-lo em segredo. Mas, a contra gosto, ou não teria o que mais queria, lá foi balbuciando:
- Menino Jesus portei-me bem. Traz-me um guarda-chuvinha ...
A mãe interrompeu
- Manta o Menino Jesus é pobrezinho e a tua irmã já pediu um guarda-chuva, ela precisa dele anda na escolinha, tu não. Pede outra coisa, que o Menino Jesus não traz dois para a mesma casa. Vá lá pede outra coisa… Manta muito triste balbuciou:
- Se não for um guarda-chuvinha outra coisa qualquer.
Deu por finda aquela devoção interrompida pela mãe. Adorava guarda-chuvas, quando chovia pegava um e ia esperar a irmã para o portão na hora da saída da escola. Era uma criança pequena para a idade, bem gordinha, os pés bastante inclinados para dentro davam-lhe um andar trôpego e pouco firme. De guarda-chuva de adulto a Manta não se via, parecia que o guarda-chuva se deslocava sozinho. As vizinhas achavam-lhe graça, ela era ladina e simpática, conversadora e tinha medos estranhos, um deles era o toque dos bombeiros que se fazia ouvir todos os dias às 12:30 h. Se coincidia com a ida de Manta esperar a irmã ao portão era um susto e chorava alto ao ponto da vizinhança estar alerta nessa hora para a ouvir e rir da explicação que dava. Confrontada com a pergunta:
- Mantinha de que tens medo?!... – E riam, a resposta era sempre a mesma a chorar - Eu tenho medo da meia hora! Elas deliravam com esta inocente criatura.
Num dia próximo do Natal perguntaram:
- Já pediste a prenda ao Menino Jesus? Ela triste respondeu: - Já, um guarda-chuva, mas a minha mãe diz que vai ser para a minha irmã…-Elas teimavam…
- E então? Não pediste mais nada? A acenar negativamente a cabeça respondeu - Humm qualquer coisa….
Elas viram que a prenda que realmente queria era aquela que com fervor pediu…
Quando, á noite, o pai regressou de trabalhar na ausência de Manta a mãe contou o pedido dela ao Menino Jesus. O pai ficou triste, não seria possível naquele Natal dar dois guarda-chuvas e afinal quem precisava era a mais velha, ela é que andava na escola. Depois duma noite mal dormida, porque o que o pai queria era vê-la feliz, saiu na manhã seguinte cabisbaixo e distraído. O vizinho vendo-o assim perguntou:
- Que se passa? Está tudo bem?
Ele respondeu:
- Está, mas a minha Manta deu-lhe para pedir um guarda-chuva ao Menino Jesus e não vou poder satisfazer o pedido dela. Que raio de moça! Podia pedir uma boneca ou outro brinquedo, escolhe logo um guarda-chuva!
Naquela época (1963) guarda-chuva pequeno na terra onde viviam não havia. Teria de compra-lo na cidade mais próxima e, mesmo assim, eram raros e caros. Crianças não usavam guarda-chuva, só mesmo adultos e nem todos. Era um luxo para a época. O vizinho que adorava a miúda propôs:
- O guarda-chuva da Manta dou eu! Vou ter todo o prazer em vê-la feliz. O pai de Manta ripostou:
- Só essa faltava. Nem pense! – Era um homem honrado e não estava habituado a que o substituíssem nas suas obrigações. Nunca faltou nada em casa, salvo coisas como esta que podiam esperar.
Mas o vizinho insistia:
- O senhor pode dar-lhe o que quiser, mas esse guarda-chuva dou eu!
Na consoada a casa tinha um ar de festa.
Fizeram presépio, ajudadas pela mãe. A Manta não saiu da cozinha a lamber as terrinas da aletria, dos formigos, rabanadas, pudim, bolo…. Xiiii tanta coisa que ela adorava… e pensava como num dia só havia tanta coisa boa!!!!
O pai trabalhava também nesse dia. Chegado a casa para jantar a mesa estava posta na sala forrada e quente, tinha comunicação com a cozinha onde crepitava uma valente fogueira, com trofegueiro de oliveira onde as brasas eram vivas e as chamas dançavam e davam calor á casa. Debaixo da mesa a braseira dava um calor acolhedor. A mesa estava posta para quatro, como sempre. A Manta ficava na cabeceira da mesa, de costas para a cozinha, sentada sobre a caixa do milho era o seu lugar cativo á mesa (era alto e no tempo não havia cadeiras para crianças comerem á mesa por aqueles lados); na outra cabeceira o pai; a irmã do lado direito do pai; e a mãe do lado esquerdo com espaço e saída para a cozinha. A ceia de Natal, como é costume, é composta de batatas com bacalhau, ovos, polvo e hortaliça (couve galega). Estavam todos já na sobremesa e o pai olha a Manta e diz:
- Olha para a cozinha, o que é aquilo?
O telhado da cozinha tinha ligação com o terraço do vizinho.
O vizinho, como a cozinha não era forrada, desviou uma telha e fazia o desejado guarda-chuva subir e descer pelas telhas…
O pai de Manta insistia:
- Manta! Estás a ver o mesmo que eu?!!! Aquele não é guarda-chuva que pediste?....
A Manta ficou paralisada só via um guarda-chuva miniatura subir e descer, parecia sonho…. Era lindo parecia que saiam estrelas dele com os reflexos das chamas da lareira, estava envolto em papel de transparente e brilhante ele parecia de ouro cor-de-rosa brilhante, lindo de morrer… Ela estava perplexa o pai voltou a querer dizer… Não deu tempo. Ela saltou a caixa onde se encontrava sentada e corria para a cozinha gritando:
- O meu guarda-chuva!!!!!!!
Correu para uma cadeira pequena, que era o lugar dela na lareira, dessa, subiu uma outra para conseguir subir a masseira. Era sobre a masseira que a prenda tão querida bailava naquele sobe e desce contínuo. Aí chegada, tentava, em vão, pegar o guarda-chuva, mas ele subia de novo… Segundos que pareceram horas e ela pedia:
- Menino Jesus dá-me o meu guarda-chuvinha… - já chorava e ele não se condoía… Até que o pai vendo tal ansiedade e já aflito com tanta euforia pediu:
- Largue, por favor. A miúda fica-me tolinha!
Largou. O guarda-chuva foi parar às mãos da Manta, que o abraçou e deu beijinhos, enquanto o pai, ao colo, a tirava da masseira. Já no chão ajoelhou e agradeceu a dádiva que tanto queria a chorar…
- Obrigada Menino Jesus! Obrigada!
A noite mais bonita de que se lembra. A cara do pai meiga e embevecida e os olhos rasos de água...
A Manta não dormiu sozinha essa noite. A seu lado, bem encostadinho ao peito, estava o guarda-chuva.
Era um processo demorado todo aquele preparar da noite de insónia. Histórias contadas á lareira no fim do jantar sobre as prendas dos anos anteriores. A irmã de Manta intervinha e dizia já tê-lo visto subir a chaminé, era mais velha 6 anos, mas naquela altura, inocente ainda.
O dia aproximava-se, a mãe de Manta um dia disse-lhe:
- Manta já pediste ao Menino Jesus a prenda? Manta tinha esquecido, mas tratou de recuperar o tempo perdido – mãos erguidas em oração, encostada á parede da sala e muito compenetrada pedia com fervor a prenda desejada – a mãe vendo-a sorriu e disse:
- Manta … - sorriu com ternura – filha, tens de pedir alto senão o Menino Jesus não ouve!
Manta sabia que a mãe lhe ia ralhar pelo pedido, por isso queria mantê-lo em segredo. Mas, a contra gosto, ou não teria o que mais queria, lá foi balbuciando:
- Menino Jesus portei-me bem. Traz-me um guarda-chuvinha ...
A mãe interrompeu
- Manta o Menino Jesus é pobrezinho e a tua irmã já pediu um guarda-chuva, ela precisa dele anda na escolinha, tu não. Pede outra coisa, que o Menino Jesus não traz dois para a mesma casa. Vá lá pede outra coisa… Manta muito triste balbuciou:
- Se não for um guarda-chuvinha outra coisa qualquer.
Deu por finda aquela devoção interrompida pela mãe. Adorava guarda-chuvas, quando chovia pegava um e ia esperar a irmã para o portão na hora da saída da escola. Era uma criança pequena para a idade, bem gordinha, os pés bastante inclinados para dentro davam-lhe um andar trôpego e pouco firme. De guarda-chuva de adulto a Manta não se via, parecia que o guarda-chuva se deslocava sozinho. As vizinhas achavam-lhe graça, ela era ladina e simpática, conversadora e tinha medos estranhos, um deles era o toque dos bombeiros que se fazia ouvir todos os dias às 12:30 h. Se coincidia com a ida de Manta esperar a irmã ao portão era um susto e chorava alto ao ponto da vizinhança estar alerta nessa hora para a ouvir e rir da explicação que dava. Confrontada com a pergunta:
- Mantinha de que tens medo?!... – E riam, a resposta era sempre a mesma a chorar - Eu tenho medo da meia hora! Elas deliravam com esta inocente criatura.
Num dia próximo do Natal perguntaram:
- Já pediste a prenda ao Menino Jesus? Ela triste respondeu: - Já, um guarda-chuva, mas a minha mãe diz que vai ser para a minha irmã…-Elas teimavam…
- E então? Não pediste mais nada? A acenar negativamente a cabeça respondeu - Humm qualquer coisa….
Elas viram que a prenda que realmente queria era aquela que com fervor pediu…
Quando, á noite, o pai regressou de trabalhar na ausência de Manta a mãe contou o pedido dela ao Menino Jesus. O pai ficou triste, não seria possível naquele Natal dar dois guarda-chuvas e afinal quem precisava era a mais velha, ela é que andava na escola. Depois duma noite mal dormida, porque o que o pai queria era vê-la feliz, saiu na manhã seguinte cabisbaixo e distraído. O vizinho vendo-o assim perguntou:
- Que se passa? Está tudo bem?
Ele respondeu:
- Está, mas a minha Manta deu-lhe para pedir um guarda-chuva ao Menino Jesus e não vou poder satisfazer o pedido dela. Que raio de moça! Podia pedir uma boneca ou outro brinquedo, escolhe logo um guarda-chuva!
Naquela época (1963) guarda-chuva pequeno na terra onde viviam não havia. Teria de compra-lo na cidade mais próxima e, mesmo assim, eram raros e caros. Crianças não usavam guarda-chuva, só mesmo adultos e nem todos. Era um luxo para a época. O vizinho que adorava a miúda propôs:
- O guarda-chuva da Manta dou eu! Vou ter todo o prazer em vê-la feliz. O pai de Manta ripostou:
- Só essa faltava. Nem pense! – Era um homem honrado e não estava habituado a que o substituíssem nas suas obrigações. Nunca faltou nada em casa, salvo coisas como esta que podiam esperar.
Mas o vizinho insistia:
- O senhor pode dar-lhe o que quiser, mas esse guarda-chuva dou eu!
Na consoada a casa tinha um ar de festa.
Fizeram presépio, ajudadas pela mãe. A Manta não saiu da cozinha a lamber as terrinas da aletria, dos formigos, rabanadas, pudim, bolo…. Xiiii tanta coisa que ela adorava… e pensava como num dia só havia tanta coisa boa!!!!
O pai trabalhava também nesse dia. Chegado a casa para jantar a mesa estava posta na sala forrada e quente, tinha comunicação com a cozinha onde crepitava uma valente fogueira, com trofegueiro de oliveira onde as brasas eram vivas e as chamas dançavam e davam calor á casa. Debaixo da mesa a braseira dava um calor acolhedor. A mesa estava posta para quatro, como sempre. A Manta ficava na cabeceira da mesa, de costas para a cozinha, sentada sobre a caixa do milho era o seu lugar cativo á mesa (era alto e no tempo não havia cadeiras para crianças comerem á mesa por aqueles lados); na outra cabeceira o pai; a irmã do lado direito do pai; e a mãe do lado esquerdo com espaço e saída para a cozinha. A ceia de Natal, como é costume, é composta de batatas com bacalhau, ovos, polvo e hortaliça (couve galega). Estavam todos já na sobremesa e o pai olha a Manta e diz:
- Olha para a cozinha, o que é aquilo?
O telhado da cozinha tinha ligação com o terraço do vizinho.
O vizinho, como a cozinha não era forrada, desviou uma telha e fazia o desejado guarda-chuva subir e descer pelas telhas…
O pai de Manta insistia:
- Manta! Estás a ver o mesmo que eu?!!! Aquele não é guarda-chuva que pediste?....
A Manta ficou paralisada só via um guarda-chuva miniatura subir e descer, parecia sonho…. Era lindo parecia que saiam estrelas dele com os reflexos das chamas da lareira, estava envolto em papel de transparente e brilhante ele parecia de ouro cor-de-rosa brilhante, lindo de morrer… Ela estava perplexa o pai voltou a querer dizer… Não deu tempo. Ela saltou a caixa onde se encontrava sentada e corria para a cozinha gritando:
- O meu guarda-chuva!!!!!!!
Correu para uma cadeira pequena, que era o lugar dela na lareira, dessa, subiu uma outra para conseguir subir a masseira. Era sobre a masseira que a prenda tão querida bailava naquele sobe e desce contínuo. Aí chegada, tentava, em vão, pegar o guarda-chuva, mas ele subia de novo… Segundos que pareceram horas e ela pedia:
- Menino Jesus dá-me o meu guarda-chuvinha… - já chorava e ele não se condoía… Até que o pai vendo tal ansiedade e já aflito com tanta euforia pediu:
- Largue, por favor. A miúda fica-me tolinha!
Largou. O guarda-chuva foi parar às mãos da Manta, que o abraçou e deu beijinhos, enquanto o pai, ao colo, a tirava da masseira. Já no chão ajoelhou e agradeceu a dádiva que tanto queria a chorar…
- Obrigada Menino Jesus! Obrigada!
A noite mais bonita de que se lembra. A cara do pai meiga e embevecida e os olhos rasos de água...
A Manta não dormiu sozinha essa noite. A seu lado, bem encostadinho ao peito, estava o guarda-chuva.
