Os vícios de Manta
Desde bebé Manta mamava na chupeta. Onde ia, a chucha companheira de todas as horas, acompanhava-a. A mãe quando ela começou a crescer envergonhava-a - Que feia! Tão grande e de chucha. Não tens vergonha? Õ pai piscava o olho a Manta e dizia: - É docinha não é? - Ela assentia com a cabeça – e depois como dormias? Diz á mãe que ela não percebe nada… Só tu e eu é que sabemos como isso sabe bem – sorria maroto para a mãe e piscava o olho a Manta. A mãe atrapalhada dizia: - És um tolo! – Atalhava – És pior que ela, alimentas-lhe o vício. Não chega o caracol?!.... Dá cabo do cabelo essa rapariga! Que raio de vícios! O pai pegava Manta ao colo e arreliava a mãe - Mama, minha menina, mama…. Embalava-a encostada naquele porto seguro, que era o peito largo e aconchegante. Manta assim relaxada levava o indicador á testa e pegava uma mexa de cabelo da franja, que caía sobre a testa, e com o indicador rolava até prender, com o dedo médio subia e descia sentindo o contacto de seda do cabelo nos dedos e o entorpecer do corpo a cada afago do dedo médio, que chamava o sono… Não era só no sono que usava fazer o caracol. Se estivesse cansada o dedito subia (conserva ainda esse relaxante). Muitas vezes durante o sono acordava com o dedo preso no cabelo, com a outra mão puxava até rebentar. Acordava no dia seguinte com o dedo roxo de falta de circulação sanguínea e com o cabelo ainda preso no dedo. Foi crescendo com os vícios ajudada pelo pai contra as investidas da mãe, ameaças e quejandos…. A chupeta era o que a mãe mais implicava, usou mil e uma maneiras, escondia-a, chegava-lhe café em pó e outras artimanhas. Mas Manta limpava com o bibe, que sempre usava. Como era bom sentir o plástico da chupeta subir e descer enrolado da língua. Com a conivência do pai mamava de dia às escondidas. Aos seis anos, quase sete, entrou para a escola. Era a 7 quilómetros de casa. Apesar de morar na Vila a professora não a matriculou por não fazer sete anos até Setembro. O pai que achava que era altura de matriculá-la resolveu fazê-lo na freguesia onde nasceu, para onde ia trabalhar todos os dias. A mãe, prevendo o desconforto que Manta sentiria pela da falta da chupeta, ia levantar-se muito cedo e o sono seria companheiro até chegar a hora da escola. Por outro lado iria permanecer, mesmo no fim das aulas, até o pai regressar á noite. Almoçariam juntos. A comida mandá-la-ia numa das horas que o pai fosse á vila pela manhã. A deslocação ia ser de autocarro com o pai ou com as professoras que também eram da vila. Mas como era muito tempo e podia dar-lhe o sono de tarde, condoeu-se. Sempre poderia dormir na casa do tio que morava na aldeia. Fez então uma saca pequenina de linho com uns atilhos torcidos, (como uma saca de milho miniatura), com essa protecção não correria o risco de a sujar a chupeta e apanhar alguma doença. Todas as manhãs Manta lavava a chucha e metia-a na saquinha que guardava na pasta. No autocarro o pai perguntava - Trazes?... Ela respondia: - Sim… e apontava a pasta. Era um código para que o revisor que era amigo da família não perceber. Manta sentava no banco do fiscal, do lado direito do pai. No meio tinha o motor do autocarro, onde se sentava quando queria estar mais pertinho dele. Raramente o pai se zangava com ela e se acontecia ela sabia, o pai arqueava as sobrancelhas e olhava-a triste. Manta nem sabia o que fazer, baixava a cabeça e sentia um calor enorme nos olhos e as lágrimas eram o sintoma da compreensão e do arrependimento. O pai uns minutos depois falava naturalmente, como nada tivesse acontecido. Ficava tudo bem. Manta sentia um carinho enorme por aquele pai compreensivo, nenhum pai das amigas era assim meigo. Todos os amigos de Manta gostavam dele e tinham medo aos pais deles. Era uma coisa que manta nunca sentiu por ele. Medo. Sentia respeito e sabia que havia coisas que ele não gostava ou porque já tinha sido repreendida ou tinha visto a irmã sê-lo. Nos dias de aulas levantavam cedo. A pasta ficava pronta do dia anterior. A mãe tinha o pequeno-almoço pronto com pão fresquinho. Os dois arranjavam-se e sentavam a tomar o pequeno-almoço, uma almoçadeira de leite com cevada e pão estaladiço e ainda morno com manteiga. Saíam de mão dada em direcção ao autocarro. No caminho para a escola, enquanto o revisor passava os bilhetes, o pai olhava pelo retrovisor e dizia: - Manta queres a chupeta? – Ela olhava-o comprometida e ele sossegava-a – O Artur está lá atrás... Dá uma chupadela rápido que eu digo se ele vier… Os olhos dele riam de poder satisfazer aquele prazer a Manta, sempre atento ao retrovisor como criança com medo de ser apanhado a fazer uma asneira. Ela não se fazia rogada e deliciava-se por uns segundos, até que o pai lhe dizia: -Guarda, rápido! Vem aí o Artur. Manta metia a chucha na saquinha de linho e guardava na pasta. Riam por ter enganado o revisor como que tivessem feito uma asneira. O Artur desconfiado perguntava: - Que se passa? O pai de Manta inventava uma história engraçada e riam todos, ela e o pai com muita mais vontade…

