segunda-feira, novembro 28, 2005

A prenda de Natal

Manta rondava os quatro anos. Era uma miúda viva e traquina. Aquele Natal marcou-a para sempre… Recorda que no tempo não se falava ainda em Pai Natal, mas no Menino Jesus, como o amigo dos meninos que se portavam bem durante o ano e que como recompensa, na noite de Natal trazia prendas.
Era um processo demorado todo aquele preparar da noite de insónia. Histórias contadas á lareira no fim do jantar sobre as prendas dos anos anteriores. A irmã de Manta intervinha e dizia já tê-lo visto subir a chaminé, era mais velha 6 anos, mas naquela altura, inocente ainda.
O dia aproximava-se, a mãe de Manta um dia disse-lhe:
- Manta já pediste ao Menino Jesus a prenda? Manta tinha esquecido, mas tratou de recuperar o tempo perdido – mãos erguidas em oração, encostada á parede da sala e muito compenetrada pedia com fervor a prenda desejada – a mãe vendo-a sorriu e disse:
- Manta … - sorriu com ternura – filha, tens de pedir alto senão o Menino Jesus não ouve!
Manta sabia que a mãe lhe ia ralhar pelo pedido, por isso queria mantê-lo em segredo. Mas, a contra gosto, ou não teria o que mais queria, lá foi balbuciando:
- Menino Jesus portei-me bem. Traz-me um guarda-chuvinha ...
A mãe interrompeu
- Manta o Menino Jesus é pobrezinho e a tua irmã já pediu um guarda-chuva, ela precisa dele anda na escolinha, tu não. Pede outra coisa, que o Menino Jesus não traz dois para a mesma casa. Vá lá pede outra coisa… Manta muito triste balbuciou:
- Se não for um guarda-chuvinha outra coisa qualquer.
Deu por finda aquela devoção interrompida pela mãe. Adorava guarda-chuvas, quando chovia pegava um e ia esperar a irmã para o portão na hora da saída da escola. Era uma criança pequena para a idade, bem gordinha, os pés bastante inclinados para dentro davam-lhe um andar trôpego e pouco firme. De guarda-chuva de adulto a Manta não se via, parecia que o guarda-chuva se deslocava sozinho. As vizinhas achavam-lhe graça, ela era ladina e simpática, conversadora e tinha medos estranhos, um deles era o toque dos bombeiros que se fazia ouvir todos os dias às 12:30 h. Se coincidia com a ida de Manta esperar a irmã ao portão era um susto e chorava alto ao ponto da vizinhança estar alerta nessa hora para a ouvir e rir da explicação que dava. Confrontada com a pergunta:
- Mantinha de que tens medo?!... – E riam, a resposta era sempre a mesma a chorar - Eu tenho medo da meia hora! Elas deliravam com esta inocente criatura.
Num dia próximo do Natal perguntaram:
- Já pediste a prenda ao Menino Jesus? Ela triste respondeu: - Já, um guarda-chuva, mas a minha mãe diz que vai ser para a minha irmã…-Elas teimavam…
- E então? Não pediste mais nada? A acenar negativamente a cabeça respondeu - Humm qualquer coisa….
Elas viram que a prenda que realmente queria era aquela que com fervor pediu…
Quando, á noite, o pai regressou de trabalhar na ausência de Manta a mãe contou o pedido dela ao Menino Jesus. O pai ficou triste, não seria possível naquele Natal dar dois guarda-chuvas e afinal quem precisava era a mais velha, ela é que andava na escola. Depois duma noite mal dormida, porque o que o pai queria era vê-la feliz, saiu na manhã seguinte cabisbaixo e distraído. O vizinho vendo-o assim perguntou:
- Que se passa? Está tudo bem?
Ele respondeu:
- Está, mas a minha Manta deu-lhe para pedir um guarda-chuva ao Menino Jesus e não vou poder satisfazer o pedido dela. Que raio de moça! Podia pedir uma boneca ou outro brinquedo, escolhe logo um guarda-chuva!
Naquela época (1963) guarda-chuva pequeno na terra onde viviam não havia. Teria de compra-lo na cidade mais próxima e, mesmo assim, eram raros e caros. Crianças não usavam guarda-chuva, só mesmo adultos e nem todos. Era um luxo para a época. O vizinho que adorava a miúda propôs:
- O guarda-chuva da Manta dou eu! Vou ter todo o prazer em vê-la feliz. O pai de Manta ripostou:
- Só essa faltava. Nem pense! – Era um homem honrado e não estava habituado a que o substituíssem nas suas obrigações. Nunca faltou nada em casa, salvo coisas como esta que podiam esperar.
Mas o vizinho insistia:
- O senhor pode dar-lhe o que quiser, mas esse guarda-chuva dou eu!
Na consoada a casa tinha um ar de festa.
Fizeram presépio, ajudadas pela mãe. A Manta não saiu da cozinha a lamber as terrinas da aletria, dos formigos, rabanadas, pudim, bolo…. Xiiii tanta coisa que ela adorava… e pensava como num dia só havia tanta coisa boa!!!!
O pai trabalhava também nesse dia. Chegado a casa para jantar a mesa estava posta na sala forrada e quente, tinha comunicação com a cozinha onde crepitava uma valente fogueira, com trofegueiro de oliveira onde as brasas eram vivas e as chamas dançavam e davam calor á casa. Debaixo da mesa a braseira dava um calor acolhedor. A mesa estava posta para quatro, como sempre. A Manta ficava na cabeceira da mesa, de costas para a cozinha, sentada sobre a caixa do milho era o seu lugar cativo á mesa (era alto e no tempo não havia cadeiras para crianças comerem á mesa por aqueles lados); na outra cabeceira o pai; a irmã do lado direito do pai; e a mãe do lado esquerdo com espaço e saída para a cozinha. A ceia de Natal, como é costume, é composta de batatas com bacalhau, ovos, polvo e hortaliça (couve galega). Estavam todos já na sobremesa e o pai olha a Manta e diz:
- Olha para a cozinha, o que é aquilo?
O telhado da cozinha tinha ligação com o terraço do vizinho.
O vizinho, como a cozinha não era forrada, desviou uma telha e fazia o desejado guarda-chuva subir e descer pelas telhas…
O pai de Manta insistia:
- Manta! Estás a ver o mesmo que eu?!!! Aquele não é guarda-chuva que pediste?....
A Manta ficou paralisada só via um guarda-chuva miniatura subir e descer, parecia sonho…. Era lindo parecia que saiam estrelas dele com os reflexos das chamas da lareira, estava envolto em papel de transparente e brilhante ele parecia de ouro cor-de-rosa brilhante, lindo de morrer… Ela estava perplexa o pai voltou a querer dizer… Não deu tempo. Ela saltou a caixa onde se encontrava sentada e corria para a cozinha gritando:
- O meu guarda-chuva!!!!!!!
Correu para uma cadeira pequena, que era o lugar dela na lareira, dessa, subiu uma outra para conseguir subir a masseira. Era sobre a masseira que a prenda tão querida bailava naquele sobe e desce contínuo. Aí chegada, tentava, em vão, pegar o guarda-chuva, mas ele subia de novo… Segundos que pareceram horas e ela pedia:
- Menino Jesus dá-me o meu guarda-chuvinha… - já chorava e ele não se condoía… Até que o pai vendo tal ansiedade e já aflito com tanta euforia pediu:
- Largue, por favor. A miúda fica-me tolinha!
Largou. O guarda-chuva foi parar às mãos da Manta, que o abraçou e deu beijinhos, enquanto o pai, ao colo, a tirava da masseira. Já no chão ajoelhou e agradeceu a dádiva que tanto queria a chorar…
- Obrigada Menino Jesus! Obrigada!
A noite mais bonita de que se lembra. A cara do pai meiga e embevecida e os olhos rasos de água...
A Manta não dormiu sozinha essa noite. A seu lado, bem encostadinho ao peito, estava o guarda-chuva.
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