O aniversário
Manta nasceu numa noite gélida de inverno. No final do primeiro mês do ano. Na terra onde nasceu, nas fraldas da serra da Cabreira, o frio é agreste e seco, a geada congelava lagos e era intensa na época. No dia do seu nascimento estava tudo preparado e quente para recebê-la. A parteira era a avó adoptiva, uma velhinha simpática e meiga de rosto branquinho e cabelo branco enrolado no cimo da cabeça, era decidida e arrojada, hábil e amiga da família, como mãe da mãe de Manta. Estava previsto Manta nascer naquele dia. Assim, levaram a irmã de Manta para a casa onde a avó adoptiva vivia com o filho, a nora e os netos. Pessoas amigas da família há longos anos e que se conviviam como que de verdadeira família se tratasse. Passavam juntos serões á lareira a contar histórias, faziam passeios e merendeis, estavam presentes nas alegrias e nas tristezas.Manta lembra de serões em que o sono se tornava pesado demais para escutá-las, mas que enquanto não se vinha, ela sorvia cada história de exemplos de vidas a seguir pelos valores que mostraram saber usar, de fantasmas e bruxas que a faziam sonhar com pesadelos. No dia do seu nascimento o pai de Manta estava em casa nervoso á espera da sua chegada. Ouvia rádio baixinho para poder seguir todos os sons do quarto ao lado. Ao sinal horário das 21 horas ouviu o grito de liberdade da Manta. Desde o dia do seu nascimento os relógios de casa passaram a assinalar a data. Despertavam às 21 horas nos anos seguintes. Manta delirava com os sons dos vários relógios, o do pai, um relógio de pulso de dois volantes que tinha um som muito próprio e que só tocava para ela, e, o grande, a que todos tinham raiva por os tirar da cama até nos dias mais frios de manhã muito cedo, com a campânula redonda e os martelinhos com um barulho ensurdecedor. Nesse dia todos os despertadores tocavam, como anjos de trombeta, causando um sorriso de felicidade ao pai, causador dos ruídos, que delirava com a alegria de Manta pela surpresa. Tocavam até que a corda acabasse. Só depois era chegada a hora de cantar os parabéns e partir o bolo que a mãe fazia para a ocasião - a mãe sempre fazia de dia um lanchezinho para ela e para os amigos mais chegados - mas á noite estava o pai e a festa era maior. O pai nunca esquecia dos relógios. Na memória de Manta os relógios tocam e o sorriso do pai baila em cada aniversário silencioso de agora.

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