A biblioteca
Por volta de 1965 foi inaugurada, na vila onde vivia Manta, a Gulbenkian fixa a 100 metros de casa. A irmã mais velha era leitora da itinerante que vinha todas as semanas. Manta queria ser leitora como ela, mas não era fácil, a idade era pouca e não era permitido. Com a abertura da fixa ela sonhava ter um cartão como a irmã, metido num plástico, pensava ela ser um estatuto superior ter o cartão... No dia em que a irmã transferiu ou adquiriu o cartão da fixa, a senhora que era agora responsável pela biblioteca é amiga da família e Manta tentou a sorte - Eu também queria um! A senhora riu-se, era muito simpática e amiga dela e da irmã e respondeu: - Tu não tens idade Manta e não sabes ler. Deixo-te ver os livros, vens quando quiseres. Mas... para inscrever-te, não tens idade... Manta ficou com os olhos rasos de lágrimas a fazer beicinho. A irmã de Manta olhou-a de canto como se ela tivesse dito uma grande asneira. Manta encolheu. Regressaram a casa e a irmã e a mãe riram dela e do pedido. Mas ela estava a perpetrar um modo de adquirir um cartão. Elas que rissem, logo se veria... Quando o pai chegou, a irmã mostrou os livros que tinha requisitado e o cartão novo. O pai olhou e folheou os livros... A Manta gemeu – Eu também quero ser leitora da biblioteca... O pai sorriu e a irmã adiantou-se: - Já chorou na biblioteca, mas não adianta, não tem idade para ser leitora. Manta insistia: - Mas eu quero ler e ter um cartão como o teu - já chorava... O pai quis explicar: - Não pode ser, filha, não tens idade. Os livros são coisas preciosas, meninos pequenos estragam... Ela dizia: - Mas eu só quero ser leitora, não estrago. - - Ó filha mas não sabes ler! Só quem sabe ler é que pode trazer livros e ter cartão. Vês os da tua irmã. Manta rebateu: - Mas os dela só têm letras e tem lá de figuras... O pai então virou-se para a irmã e disse: - Quando entregares esses trazes um para a Manta com imagens. A irmã assentiu. E assim passou a ser. Mas a irmã tinha um número limitado para trazer e aquele ocupava esse número privando-a de trazer os que queria para ela. Começaram a entrar em conflito. Um dia o pai resolveu dizer á irmã que perguntasse o que era preciso para Manta ser leitora com direito a cartão. Manta ganhou a batalha. A irmã perguntou e informou o pai: - Paizinho a Manta não pode inscrever-se, mas se o paizinho se quiser inscrever ela pode trazer livros no seu nome. A Lindinha disse para falar com ela. Manta não deixou o pai esquecer de falar com a senhora e dias depois lá foram ambos á biblioteca. Ficou combinado. Ela levaria livros com o cartão do pai. A ida á biblioteca passou a ser diária. A pedido do pai levava livros de zoologia. Era o pai que lhe lia, mas não eram histórias que a Manta gostava. Depois, aquelas imagens povoavam os sonhos de Manta... crocodilos... cobras... aves... Dava medo sonhar com aquilo. Começou a querer outros, mas o pai não tinha paciência para ler histórias de encantar. A irmã tinha os dela para ler e não dava tempo de ler os de Manta e a mãe era analfabeta. Por causa dos livros houve alguns atritos em casa. Cresceu em Manta a vontade de saber ler e com a ajuda do pai começaram a ser diferenciadas as primeiras letras no jornal... A irmã ia ajudando.Com o tempo deixou de levar para casa os livros de bicharocos que tanto a assustavam em sonhos. Levava agora livros de letras garrafais, com imagens lindas. Lembra ainda uma das histórias que leu e compreendeu, um pouco mais tarde..."Um agricultor tinha uma quinta e cuidava dos animais. Havia uma vaca que estava fraquinha e comia pouco. O agricultor preocupado com a vaca que lhe dava o leite para sustento da casa, resolveu vigiar o pasto e descobriu que a vaca só comia trevos... erva a vaca não comia... Era estranho, pensava ele, uma vaca esquisita...Trevos nos campos são raros não seriam suficientes os que tinha para manter a vaca bem alimentada e com saúde. Pensou.... pensou... E pôs mãos á obra. Arranjou uns óculos enormes e desenhou nas lentes trevos. Colocou-os na vaca e levou-a a pastar. Já no campo a vaca comia tudo o que lhe aparecia na frente erva, trevos e rebentos de arbustos.
Moral da história, sem provar a comida, não se sabe se se gosta.
Moral da história, sem provar a comida, não se sabe se se gosta.

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